Carta de fundação do Grupo Eufémias – Rede Magdalena Portugal ou

Era uma vez quatro mulheres em torno de um livro...

A primeira partilhou o desejo de criar uma peça a partir de um livro antigo chamado A enciclopédia da mulher no lar, que explica como ser uma boa dona de casa. A segunda levantou-se e foi buscar O livro da mulher, partilhando que estava a construir com ele um monólogo e que sonhava com o dia em que o encenaria. A terceira, comovida, disse que amaria contribuir para a releitura daqueles livros. A quarta, a sentir tudo aquilo na pele, estremeceu e percebeu que teria de fazer parte desta descoberta.

E se, disse a segunda, juntássemos mulheres de outras partes do mundo que já trabalham com narrativas como as daqueles livros (para as denunciar, desconstruir, transformar, sublimar, apagar, riscar e reescrever através da sua arte) há muitos e muitos anos? A primeira, a terceira e a quarta concordaram imediatamente e meteram mãos à obra. Chegou, depois, mais uma, que, escutando-se com atenção, ouviu o mesmo apelo vindo do fundo de si e decidiu, também ela, entrar nesta aventura.

Porque.
Porque é.
Porque é necessário.

Porque a arte é a nossa casa.
Porque já nos disseram demasiadas vezes para falar baixo.

Porque queremos ser agentes da nossa própria identidade.

Porque o nosso corpo é um espaço de inscrição de narrativas.

Porque o nosso corpo é um espaço político.

Para dizermos eu sou, eu estou, eu digo, eu faço.
Para dar visibilidade à mulher criadora, social e política.
Para gravar as vozes das mulheres no espaço público.
Para tirar debaixo do tapete o que para lá está a ser varrido há tanto tempo.
Para dar voz às histórias silenciadas de mulheres.
Para dar a conhecer mulheres silenciadas pela história.
Para amplificar a voz de criadoras em rede.
Para que as artes cénicas sejam cada vez mais um espaço de igualdade, de inclusão, de troca de saberes e experiências, de diálogo e de reflexão.
Para potenciar encontros de criação entre mulheres.
Para continuar a escrever a genealogia da história das artes cénicas criadas por mulheres.

Para afirmar a cultura como veículo de emancipação e mudança social.
Para encorajar e promover o trabalho criativo feito por mulheres.
Para construir colectivamente respostas criativas a desafios sociais.
Para contribuir para o fim da censura das (e auto-censura nas) mulheres.
Para contrariar os discursos anti-feminismo.
Para denunciar a discriminação da mulher ainda existente em Portugal.
Para que cada vez menos mulheres se sintam estrangeiras no seu próprio corpo.

Para contribuir para a reflexão académica sobre as Artes Cénicas e as obras criadas e protagonizadas por mulheres.
Para incentivar o pensamento crítico sobre a presença das mulheres na sociedade.
Para contribuir para a partilha do trabalho das primeiras gerações da Rede Magdalena com as novas gerações.

Para participar na transmissão e na recepção do legado da Rede Magdalena.

Para ampliar o alcance da Rede Magdalena.

E era uma vez um nome...

No acto de nos nomearmos, quisemos homenagear uma mulher portuguesa que, de forma intensa e significativa, representa a luta das mulheres por uma realidade mais justa ao dar corpo à resistência contra um sistema violento e opressivo. Catarina Eufémia foi assassinada aos 26 anos, em 1954, durante a ditadura de Salazar, enquanto protestava, ao lado de treze outras mulheres, por melhores condições de trabalho. Ceifeira, alentejana, mãe de três filhos, um dos quais segurava no colo no momento em que foi assassinada, estaria grávida. E teve a coragem de lutar pelo que acreditava até as mais drásticas consequências.

Ela foi Catarina Efigénia Sabino Eufémia.


Nós somos as Eufémias e damos continuidade ao seu “não”, para podermos dizer e fazer um outro “sim”.

CATARINA EUFÉMIA


Sophia de Mello Breyner Andresen (in Dual)

O primeiro tema da reflexão grega é a justiça
E eu penso nesse instante em que ficaste exposta Estavas grávida porém não recuaste
Porque a tua lição é esta: fazer frente
Pois não deste homem por ti
E não ficaste em casa a cozinhar intrigas
Segundo o antiquíssimo método oblíquo das mulheres Nem usaste de manobra ou de calúnia
E não serviste apenas para chorar os mortos

Tinha chegado o tempo
Em que era preciso que alguém não recuasse E a terra bebeu um sangue duas vezes puro

Porque eras a mulher e não somente a fêmea
Eras a inocência frontal que não recua
Antígona poisou a sua mão sobre o teu ombro no instante em que morreste

E a busca da justiça continua.